Esporte

Médico do América, Maeterlinck Rego inicia batalha para ingressar no Livro dos Recordes

Com 55 anos de atividade, Maeterlinck Rego americano já é o profissional médico mais antigo em atividade futebol nacional | Foto: Alex Régis

Quando Maeterlinck Rêgo cruza os portões do centro de treinamento do América Futebol Clube, algo curioso acontece. Mesmo após cinco décadas de rotina, o coração ainda dispara levemente — e ainda aparece aquele “friozinho na barriga” que teima em não envelhecer. Ali não é apenas o local de trabalho de um médico; após tanto tempo já se transformou na extensão da sala de sua própria casa.

Em 2026, Maeterlinck atingirá a marca impressionante de 55 anos de serviços prestados ininterruptamente ao Alvirrubro. Uma vida dedicada a remendar ossos, curar músculos e ouvir lamentos de craques e aspirantes. Agora, o decano da medicina esportiva potiguar se prepara para uma missão que vai além das quatro linhas: o reconhecimento oficial, pelo Guinness World Records (Livro dos Recordes), como o médico de clube mais longevo do mundo ainda em atividade.

Para quem vive o dia a dia do futebol em Natal, a onipresença de Maeterlinck é um fato consumado. Mas, para os auditores rigorosos dos livros de recordes e da própria CBF, a memória oral não basta. Começa aí o maior desafio da carreira do médico: a arqueologia documental.

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“Eu tenho 55 anos de clube, mas o América tem 110. Eu vivi metade da história dessa instituição”, reflete Maeterlinck. O problema reside na informalidade nos setores de arquivos da CBF e das federações nas décadas passadas. Nos anos 70, 80 e 90, a presença do médico à beira do gramado nem sempre era obrigatória, mas na era Maeterlinck Rego, jamais o América entrou em campo sem o representante médico no banco de reservas.

“Não é fácil. Eles precisam de documentação. Eu fui campeão 23 vezes, tenho fotos, antigamente o médico assinava a súmula, mas eu não sei se esses documentos estão guardados. Hoje, nem assinar assinamos, o nome consta no documento da partida e nós apenas mostramos a carteira”, explica, consciente de que não basta ter vivido a história — é preciso provar que estava lá.

Maeterlinck está iniciando uma verdadeira força-tarefa, reunindo fotos antigas, títulos de Sócio Benemérito da CBF e até documentos assinados por ex-presidentes da FIFA, como Joseph Blatter, da época em que foi cogitado para a coordenação médica da Copa do Mundo. A busca é por transformar 55 anos de suor e dedicação em papel e carimbo aceitos internacionalmente.

Evolução

A longevidade de Maeterlinck faz dele uma enciclopédia viva da evolução da medicina esportiva. Ele viu o futebol mudar de um esporte quase brutal para uma ciência de alta precisão.

“Na minha época de início, o diagnóstico de menisco era feito com uma ‘pneumoartrografia’. Injetávamos ar no joelho do atleta com uma seringa para tentar visualizar a lesão. Era doloroso”, recorda. O tratamento também era radical: “Rompeu o menisco? Tirava tudo. Isso aposentou craques como Reinaldo e o nosso Souza, que pararam cedo devido à artrose precoce. Hoje, com a ressonância magnética e a sutura, ninguém mais tira menisco. O atleta perde meses, mas salva a carreira.”

Ele também lembra dos tempos do éter e das infiltrações perigosas, práticas comuns na época de Garrincha, que jogava anestesiado para garantir o “bicho” nas excursões do Botafogo. “Hoje, com a tecnologia, a nutrição e a fisiologia que temos, Pelé teria feito muito mais que 1.200 gols”, garante.

Dinastia de Jalecos

A relação de Maeterlinck com o América transcendeu o profissionalismo e virou herança familiar. O clube, que ele adotou após uma carona fatídica do diretor Dilermando Machado em 1971 — quando ainda era um jovem nos bancos da faculdade e trabalhava no rival Alecrim —, tornou-se o quintal de seus filhos.

Hoje, Marcelo, Márcio e Marcos não são apenas filhos de Maeterlinck; são médicos ortopedistas que dividem com o pai a responsabilidade pelo Departamento Médico do clube. “Eles, de fralda, eu já levava para o América”, conta o pai orgulhoso. A dinastia Rêgo garante que, mesmo quando o patriarca decidir pendurar o estetoscópio, o DNA de cuidado e amor pelo clube permanecerá intacto.

Questionado sobre aposentadoria, Maeterlinck desconversa com a sabedoria de quem sabe que o futebol é um vício incurável. Sua falecida esposa, companheira de meio século, costumava perguntar quando ele pararia. A resposta era sempre uma brincadeira séria: “No dia em que o massagista entrar em campo correndo mais rápido que eu”.

Enquanto busca os papéis amarelados para provar ao mundo o que o Rio Grande do Norte já sabe, Maeterlinck Rêgo continua firme. Aos 55 anos de casa, ele demonstra que a medicina pode curar o corpo — mas, para a paixão pelo América, felizmente, ainda não existe remédio.

Fonte Tribuna do Norte